AS NECESSIDADES ATUAIS DOS SURDOS ORALIZADOS NA VISÃO DA METODOLOGIA
ÁUDIO + LINGUAGEM ORAL
A falta de informação sobre o tratamento oral da surdez impede que a pessoa surda e oralizada tenha uma vida mais completa, mesmo conseguindo descobrir e desenvolver suas potencialidades, na audição, na linguagem oral, na escolaridade e como pessoas.
Quero relatar as dificuldades que vêm acontecendo com alguns ex-pacientes da Metodologia e que hoje são alunos universitários. Faço das palavras deles as minhas palavras, já que eles me autorizaram expor esse assunto.
Antes, porém, farei uma apresentação deles:
- Graziella Castelões Faini - aluna da Faculdade de Arquitetura (UNESA/RJ) - é portadora de uma perda auditiva neurossensorial bilateral em grau profundo;
- Mariza Mara Mattos Salazar - aluna da Faculdade de Direito (UNESA/RJ) - é portadora de perda auditiva neurossensorial bilateral em grau profundo;
- Raul Silva Pinheiro - aluno da Faculdade de Astronomia (UFRJ/RJ) - é portador de uma perda auditiva neurossensorial em grau profundo.
" OUÇA O QUE O SURDO ORALIZADO TEM PARA LHE DIZER"
OUVIMOS MAIS QUE A SOCIEDADE
Em pleno século XXI, sobrevivem os preconceitos contra os deficientes auditivos. Embora leis, portarias e declarações de direitos internacionais aparentemente nos garantam direitos legais, a sombra do preconceito e da discriminação ainda nos impede de ter uma vida socialmente integrada. O primeiro preconceito é que o surdo também é mudo- ou quiçá retardado. A ele é reservado, no mercado de trabalho, apenas funções como as de faxineiro, lixeiro ou, no máximo, digitadores em ambientes barulhentos.
Consideramos que, assim como outras profissões, as de faxineiro e lixeiro são dignas, mas queremos garantir o nosso direito à escolha pessoal, com base na Declaração Internacional dos Direitos dos Deficientes.
" As pessoas deficientes têm direito à segurança econômica e social e a um nível de vida decente e, de acordo com suas capacidades, a obter e manter um emprego ou desenvolver atividades úteis, produtivas e remuneradas e a participar de sindicatos"
Todos os deficientes auditivos, se trabalhados desde a infância, podem se comunicar pela fala e se integrar à sociedade de maneira produtiva, podendo escolher sua profissão, guardadas as limitações evidentes. Somos surdos, sim, mas falamos e muito de nós, hoje, estudam em universidades, onde muitas vezes esbarramos em dificuldades concretas de aprendizado nas salas de aula.
O simples preconceito é incompatível com a cidadania, que pretendemos estender a todo cidadão brasileiro. Esta é uma causa que deve ser defendida por todos, porque a todos atinge.
Por essas dificuldades, vimos a necessidade de organizarmos reuniões, uma vez por mês na Clínica Espaço de Fonoaudiologia de JMC, no Flamengo, orientados por psicólogas e fonoaudiólogas, nas quais expomos nossas dificuldades e nos organizamos com o objetivo de elaborar uma proposta para melhorar nosso aproveitamento em sala de aula, através da conscientização de professores, diretores, reitores e demais membros da universidade.
O primeiro passo é a constituição de uma entidade sem fins lucrativos, com o objetivo claro de constituir um grupo de surdos dispostos a fazer valer seus direitos.
OBJETIVOS DA PROPOSTA
A presente proposta objetiva obter ajuda para os estudantes universitários com perda auditiva leve, moderada, severa ou mesmo profunda e que falam, com a finalidade de conseguir uma melhor participação em salas de aula, podendo, assim, absorver melhores informações necessárias a sua formação acadêmica e deixar claro a necessidade de criação de meios de orientação e conscientização do corpo docente e respeito dos deficientes auditivos que falam, de forma a acabar com o conceito medieval de que todo surdo é mudo.
DIFICULDADES E SOLUÇÕES
A Portaria do Ministério da Educação de número 1.679 de 2 de dezembro de 1999, dispõe o seguinte no artigo 2° alínea "c":
Para alunos com deficiência auditiva. Compromisso formal da instituição de proporcionar; caso seja solicitada, desde o acesso até a conclusão do curso: quando necessário, intérpretes de língua de sinais/língua portuguesa, especialmente quando da realização de provas ou sua revisão, complementando a avaliação expressa em texto
escrito ou quando este não tenha expressado o real conhecimento do aluno; flexibilidade na correção das provas escritas, valorizando o conteúdo semântico; aprendizado da língua portuguesa, principalmente na modalidade escrita (para uso do vocabulário pertinente às matérias do curso em que o estudante estiver matriculado); materiais de informação aos professores para que se esclareça a especificidade linguística dos surdos.
Até agora, no entanto, nem mesmo alguns procedimentos dentro da sala de aula, que são prejudiciais ao aprendizado total, são observados:
- Professor fala de costas para a classe: a maioria dos deficientes auditivos faz leitura labial para complementar o entendimento sonoro portanto, seria necessário que o professor falasse de frente para a turma, se possível em um tablado colocado nas salas de aula, como já existe em algumas universidades, para facilitar o aluno a fazer leitura labial.
- Informações importantes, como data, horário, matéria de provas, adiamento das mesmas e trabalhos, são apenas ditas torna-se necessário escrever essas informações no quadro ou avisar o aluno pessoalmente (por causa de barulhos externos ou até mesmo a conversa de alunos dentro da sala de aula há dificuldade na assimilação do que o professor fala).
-Mudanças repentinas sobre datas ou locais de provas e trabalhos, avisos sobre a ausência de professor ou qualquer outro aviso importante por meio oral assim como no caso anterior, todos esses avisos devem ser escritos no quadro ou informados diretamente ao estudante.
-Falta de livros específicos universitários: mesmo com o professor falando de frente para a classe, escrevendo no quadro os tópicos da matéria e o aluno copiando de um colega tudo o que foi dito é fundamental que o professor passe, junto com a matéria, uma bibliografia relacionada à matéria dada para que o aluno possa estudar em casa e absorver todo plano de aula.
- Nas aulas de projeção de slides e transparências no telão, apagam-se as luzes. Esta prática é comum nas universidades do país e é extremamente prejudicial ao aluno com perda auditiva manter uma iluminação parcial propicia a superação dessa dificuldade, pois ele não pode ler os lábios do professor e saber o que acontece ao seu redor.
-Os sons externos, não inerentes ao processo de ensino, atrapalham as pessoas que fazem o uso do aparelho auditivo. Alunos conversando, pessoas no corredor, aparelhos que geram ruídos e todas as formas de som no ambiente são capazes de desviar a concentração e dificultar o entendimento da matéria dada diminuir ao máximo a quantidade de ruído de máquinas (ex.: ventiladores, ar condicionado) e pedir a compreensão da turma e dos professores. O uso da indução magnética nas salas grandes, auditórios e diversas dependências da universidade solucionaria este problema.
- Quando a sala for grande e não houver mais lugar na frente, o aluno acaba tendo que sentar no fundo da sala sempre reservar um lugar na frente para alunos a fim de lhe proporcionar uma melhor leitura labial.
- Que a universidade crie um sistema de incentivo a que um aluno voluntário, de bom nível, possa monitorar o aluno deficiente auditivo, fornecendo-lhe a matéria tratada em aula por escrito, ou que lhe esclareça as dúvidas que não sejam de responsabilidade direta do professor infelizmente, o que outrora ocorria por mera solidariedade, hoje em dia deve ser premiado. Os alunos, de modo geral, não tem paciência para esclarecer dúvidas dos alunos com perda auditiva, demonstrando nitidamente esta má vontade a cada vez que são solicitados. É sempre constrangedor para um aluno deficiente ter que depender de outro para informações que não conseguiu captar. Deste modo, fazemos à entidade de ensino uma sugestão que seja criado um sistema de bolsa parcial ou de crédito em notas caso alguém se voluntarize para ajudar um aluno portador de deficiência auditiva.
As medidas acima sugeridas dependem única e exclusivamente da boa vontade do professor e da entidade de ensino. Na sua maioria, fazem parte de procedimentos metodológicos comuns a qualquer ensino, mas muitas vezes são esquecidas ou negligenciadas.
FINALIDADE DA PROPOSTA
A finalidade desta proposta é minimizar os problemas provocados pela falta de informação do corpo docente e da sociedade em geral a respeito de deficientes auditivos oralizados. Os professores não estão orientados para lidar com alunos surdos e, muitas vezes, agem de forma inadequada, tratando-os diferentemente.
Esta proposta também faz parte de um projeto maior na luta das pessoas com perda auditiva oralizadas para mostrar aos ouvintes sua capacidade e a sociedade deve garantir os direitos daqueles na sociedade de forma geral.
Aproveitamos a oportunidade para agradecer a algumas emissoras de televisão a introdução do closed caption que nos permitiu a compreensão dos programas de forma independente. E também às empresas de telefonia celular pelos benefícios da comunicação através dos envios e recebimentos de mensagens.
Esta matéria nos mostra que pior do que uma deficiência é a falta de eficiência na formação e informação da mídia, da escola e da sociedade em geral.
Texto retirado do livro"Surdez e o Método Áudio+Linguagem Oral"- de sua autoria.
Vivências que me
fizeram crescer
Raul S. Sinedino Pinheiro
Acabo de ler um livro da
minha ex-fonoaudióloga, Jordelina Montalvão Corrêa. Após o término da
leitura, resolvi escrever um texto sobre minhas vivências e experiências
de uns três anos para cá, para compartilhá-las com as pessoas próximas.
Todas as experiências, digamos marcantes, mudaram todo meu conceito
sobre surdez. Na verdade, as pessoas acham que têm um conceito, ou
melhor, um pré-conceito sobre um determinado assunto, mas com a vivência
o derrubam e passam a olhá-lo com outros olhos.
Costumo diferenciar o
pré-conceito do preconceito. O primeiro significa desconhecer o conceito
de uma coisa, mais por culpa da falta de informação e conclusões
precipitadas, enquanto o segundo significa distorcer e reforçar o
conceito, devido à educação que se recebe dentro de casa.
Eu, por exemplo, achava
que era o único surdo oralizado. O que é ser um surdo oralizado? É
aquele que possui a surdez, mas consegue falar. Às vezes, o surdo
oralizado encontra dificuldades de pronunciar certas palavras, mas
consegue ter uma boa fala, uma boa articulação e assim ser entendido
pelos ouvintes. Mas indo a diversas reuniões no consultório da minha
ex-fonoaudióloga, pude conhecer outros surdos oralizados. Apenas
diferentes na forma de falar, mas com um problema comum: a dificuldade
de ser aceito na sociedade e sofrer com a concepção errônea de que todo
surdo é mudo. Assim sendo, pude reparar que a maioria dos surdos
oralizados - para fugir dessa concepção, ou por achar que a palavra
surdo é ofensiva-, costuma dizer que é deficiente auditivo ou ainda que
“ouve pouco”. Eu, particularmente, fujo dessas divisões, desses rótulos
que a sociedade procura impor. Afinal, se queremos realmente mudar a
concepção de que todo surdo é mudo, para mostrar que está errada,
devemos dizer que somos surdos. Assim, todos podem ver que existe surdo
falando.
Lendo cada livro que
aborda a surdez, eu fico impressionado como as pessoas dificultam uma
coisa que poderia ser simples. Talvez por não serem surdos, por não
sentirem o que realmente o surdo sente. Acho que chegou a hora do surdo
falar por si mesmo, expor as suas dificuldades, seus medos, seus
fracassos, suas vitórias e assim passar a experiência vivida a outros
surdos que estejam passando pelo que nós passamos.
Esse ano, tive muitas
experiências marcantes na minha vida. Pude freqüentar o tal falado
“mundo dos surdos”, ver como é este mundo e como eles se comportam.
Infelizmente, tive uma péssima impressão, me sentir excluído pela
maioria deles, por ser um surdo que fala. E ainda nos julgam
preconceituosos com eles. Como seríamos capazes de exercer o preconceito
contra outros surdos, se ao fazer isso estaríamos exercendo o
preconceito contra nós mesmos? E assim pude tirar uma conclusão, sempre
existiu e acho que sempre vai existir a guerrinha de qual método é
melhor: a oralização ou a linguagem de sinais. Mas, para
mim, a oralização é o método mais aplicado se queremos nos integrar numa
sociedade de ouvintes e sermos independentes.(Vale dizer que não sou
contra a linguagem de sinais, pois há muita coisa envolvida, como o
aspecto sócio-econômico - falta de dinheiro para poder pagar uma terapia
-e falta de informação da maioria dos pais de surdos).
O que pude reparar nos
surdos que “falam” a linguagem de sinais é que não possuem abstração e
um vocabulário enriquecido. O que se nota é um vocabulário de criança,
brincadeiras de crianças. . E estando no mundo dos surdos não oralizados,
pude observar que eles vivem na panelinha deles, comumente chamado de
“gueto”, não expandem o horizonte e nem se arriscam a conhecer o que a
vida tem a nos oferecer. Eu penso da seguinte forma: todos nós surdos
devemos ter acesso ao método da oralização por nos permitir entender o
mundo, para aprender a abstrair os conceitos e a entender até mesmo o
duplo sentido. Só depois de alcançarmos a oralização é que devemos
decidir se queremos aprender a linguagem de sinais ou não, para nos
comunicar com os outros surdos.
Aceitei um convite para
uma palestra do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), curioso
para saber o que lá eles falam e o que costuma rolar. Fiquei bastante
decepcionado por ver aquelas pessoas defendendo a linguagem de sinais,
sem poder PROVAR que é benéfico para os surdos. Pra que essa guerrinha
de qual método é o melhor? Por que não apresentar alternativas para que
cada pai ou mãe possa escolher o melhor método para seu filho surdo? E
para ser mais específico, me pergunto quem são aquelas pessoas, que
sequer são surdas, para defender, ou melhor, forçar como devemos ser
ensinados? Também pude notar que eles tentam fazer com que os ouvintes
aprendam a linguagem de sinais para conviver e entender os surdos. Mas
eu me pergunto: será que a maioria tem que se adaptar à minoria? Não, é
a minoria que tem que se adaptar à maioria, INFELIZMENTE.
Me
surpreendi com a afirmação de que a língua natural dos surdos é a
linguagem de sinais. Será que não sou surdo? Sou o quê, afinal? E também
me surpreendi com o descaso com que eles tratam o aparelho de audição,
como um objeto insignificante. Parecem sentir “nojo” de escutar sons.
Essas experiências que tive me mostraram que a sociedade em geral não
está preparada para lidar com o tema SURDEZ. É triste estarmos no século
21 e ainda debatendo, perdendo o tempo com o dilema Oralização ou LIBRAS (Linguagem de sinais). Por que não gastarmos nosso
glorioso tempo lutando pelo nosso avanço na sociedade? Por que não
perdemos tempo exigindo nossos direitos? Por que não lutamos pra ter
legenda em todos canais abertos de TV e legenda nos aeroportos que nos
mostre o que costumam falar nos alto-falantes? Por que não traduzir o
que o piloto de avião fala durante as viagens, por mais bobo que seja?
Eu quero ter o mesmo direito dos ouvintes de ouvir bobagens. Era bom que
os surdos parassem de brigar, afinal somos surdos e temos os mesmos
problemas independentemente do que tenhamos alcançado nas nossas
histórias pessoais.
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